A Religião Psicológica

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Inconsciente e Complexos

"Grupo de Estudos da Série Psicológica “Joanna de Ângelis" Módulo 5 – Inconsciente e Complexos



Bibliografia:
·         Amor, Imbatível Amor: Capítulo 1 – Amor, imbatível amor (item: Poder para o prazer);  Capítulo 4 – Mecanismos Conflitivos  (item: Feridas e cicatrizes da infância)
·         Autodescobrimento: Capítulo 4 – O Inconsciente e a Vida (Itens: O Inconsciente e o Inconsciente Sagrado); Capítulo 12 – Triunfo sobre o Ego (itens: Infância Psicológica; Insegurança e Arrependimento).
·         Encontro com a Saúde e a Paz: Capítulo 3 – Autodesamor (itens: Introdução, Autocondenação; Autopiedade).
·         Momentos de Saúde: Capítulo 4 – Liberação
·         O Despertar do Espírito: Capítulo 2 – Auto-Realização (itens: Introdução; Subpersonalidades); Capítulo 6 – (Item: O Ser humano perante si mesmo).
·         O Homem Integral: Capítulo 4 – O Homem em busca do êxito (Item: Insegurança e Crises);
·         Triunfo Pessoal: Capítulo 1 – O Cérebro e o Espírito (Item: O inconsciente); Capítulo 3 – Tormentos Psicológicos (Itens: Insegurança Pessoal; Desajustes Internos); Capítulo  4 – Realização Interior (item: Complexo de inferioridade)
·         Vida: Desafios e Soluções: Capítulo 2 – Significado do Ser Existencial (item: Conflitos pessoais); Capítulo 7 – Descobrindo o Inconsciente (Item: Análise do Inconsciente).
·         Em Busca da Verdade: Capítulo 1 – O Ser Humano e sua Totalidade; Capítulo 9 – Busca Interior (Item: Identificando o Inconsciente).


1. Inconsciente

O Inconsciente é a totalidade dos fenômenos psíquicos, destituídos da qualidade de consciência. Ele é, ao mesmo tempo, vasto e inexaurível. Não é simplesmente o desconhecido, ou o depósito dos pensamentos e emoções conscientes que foram reprimidas, mas inclui os conteúdos que podem ou que irão se tornar conscientes.

“Assim, definido, o inconsciente descreve um estado de coisas extremamente fluido: tudo o que eu sei, mas que no momento não estou pensando; tudo aquilo de que antes eu tinha consciência, mas de que agora me esqueci; tudo o que é percebido pelos meus sentidos, mas que não foi notado pela minha mente consciente; tudo aquilo que, involuntariamente e sem prestar atenção, sinto, penso, recordo, quero e faço; todas as coisas futuras que estão tomando forma em mim e que em algum momento chegarão à consciência: tudo isto é o conteúdo do inconsciente”.  (JUNG)

Sempre que o inconsciente se torna superativo, ele se manifesta através de sintomas, que paralisam a ação consciente. É o que sucede quando os fatores inconscientes são ignorados ou reprimidos.

Jung atribuía ao inconsciente uma função criativa, no sentido de que este apresenta à consciência conteúdos necessários à saúde psicológica. Não é, contudo, superior à consciência; suas mensagens devem ser, sempre, mediadas pelo ego.

1.1. Inconsciente Pessoal

O que vai acontecer com as experiências que não tem aceitação do ego? Ficam, armazenadas no que Jung denominou inconsciente pessoal. Este nível da mente é contínuo ao ego. É o receptáculo que contém todas as atividades psíquicas e os conteúdos que não se harmonizam com a individuação ou função consciente.

Nele estão as memórias perdidas, idéias dolorosas que são reprimidas (isto é, esquecidas de propósito), percepções subliminares (aquelas percepções dos sentidos que não são suficientemente fortes a ponto de atingir a consciência) e, finalmente, conteúdos que ainda não estão maduros para a consciência. Ficam muitas vezes esquecidos, simplesmente porque não eram importantes ou porque assim pareceram na época em que foram experimentados. Todas as experiências fracas demais para atingir a consciência, ou para nela permanecerem, ficam armazenadas no inconsciente pessoal.

Os conteúdos do inconsciente pessoal, de modo geral, têm fácil acesso à consciência quando surge tal necessidade, por exemplo, uma pessoa sabe os nomes de muitos amigos e conhecidos, naturalmente, tais nomes não permanecem o tempo todo presentes na consciência, mas estão à disposição sempre que necessário. Experiências que passaram despercebidas durante o dia podem aparecer num sonho na noite do mesmo dia. Na realidade, o inconsciente pessoal desempenha um papel importante na produção dos sonhos.


1.2. Inconsciente Coletivo

Na concepção da Psicologia Analítica, trata-se da camada estrutural da psique humana, que contém elementos herdados, distintos do inconsciente pessoal. Ele contém toda a herança espiritual da evolução da humanidade, nascida novamente na estrutura cerebral de cada indivíduo. É um reservatório de imagens latentes, em geral denominadas “imagens primordiais[1]”, por Jung. Importante ressaltar, no entanto, que a partir da visão espírita, que inclui o  conceito de reencarnação, verificamos que a estrutura do inconsciente Coletivo apresenta a própria evolução do espírito, como forma de registrar os avanços efetuados na escala evolutiva. Não se trata, portanto, de o Inconsciente Coletivo registrar a vida de todas as pessoas, em todas as épocas, mas as suas próprias experiências em vidas e eras passadas.

O homem herda tais imagens do passado ancestral, passado que inclui todos os antecessores humanos, bem como os antecessores pré-humanos ou animais. Estas imagens não são herdadas no sentido da pessoa lembrar delas conscientemente. São predisposições ou potencialidades no experimentar e no responder ao mundo tal como os antepassados.

O homem nasce com muitas predisposições para pensar, sentir, perceber e agir de maneiras específicas. O desenvolvimento e a expressão de tais predisposições ou imagens latentes dependem inteiramente das experiências do indivíduo. Quanto maior o número de experiências, mais numerosas as probabilidades de as imagens latentes tornarem-se manifestas.    

Jung derivou sua teoria do inconsciente coletivo da presença dos fenômenos psicológicos que não podem ser explicados à base da experiência pessoal. Quanto mais nos tornamos cientes dos conteúdos do inconsciente pessoal, tanto mais se revela o rico substrato das imagens e dos motivos compreendidos no inconsciente coletivo. O seu efeito é o alargamento da consciência.


2. Complexos

2. 1. Complexos: A Pedra no nosso sapato

Você já deve ter ouvido alguém dizer “fulano é complexado”ou “aquele sujeito tem complexo de inferioridade (ou de superioridade)”. Existem vários tipos de complexos, como os de Peter Pan, o menino que não queria crescer; de Cassandra, a mulher intuitiva mas incapaz de se fazer acreditar, etc. O termo “complexo”, que passou a fazer parte da linguagem do dia-a-dia, foi introduzida por Jung para definir determinados termos emocionais que, não conscientizados, nos atrapalham, e muito.

Complexo é uma fonte carregada de energia, com forte coloração afetiva, formada por associações, ou seja, imagens, percepções, idéias e fantasias encadeadas e agrupadas ao redor de um núcleo (arquétipo). São pontos focais ou nodais da vida psíquica que não devem faltar, pois, de outra maneira, a atividade psíquica chegaria a uma paralisação fatal. Os complexos contêm o poder impulsionador da vida psíquica. 

O interesse de Jung pelo estudo dos complexos nasceu de um acontecimento curioso. Certa vez, um colega contou-lhe sobre uma experiência que tivera durante uma longa viagem de trem pela Rússia. Embora desconhecesse o alfabeto cirílico (Russo), ele começou a divagar em torno dos anúncios que avistava nas estações, entrou num estado de devaneio intermediário entre o sono e a vigília, no qual imaginava toda espécie de significados para aquelas palavras. Uma idéia foi levando à outra e, como se estivesse tendo um sonho, embora acordado, muitas lembranças antigas começaram a emergir. Algumas situações desconfortantes, há tempo esquecidas, voltaram à tona. Conteúdos que ele conseguira apagar tinham, para sua surpresa, retornados.

Tal relato inspirou Jung, que, nessa época, trabalhando como assistente de Bleuler da clínica psiquiátrica de Burghölzli, havia se tornado um perito na realização de testes de associação com palavras.

A partir dessas experiências, Jung descobriu que o inconsciente tem uma certa autonomia, sendo capaz de se impor à mente consciente. Essa autonomia é que fazia com que a pessoa dissesse coisas que não queria dizer conscientemente. Tais perturbações indicariam que a palavra-estímulo havia atingido um ponto sensível do inconsciente de pessoa.

Suas observações levaram-no a descobrir no inconsciente um núcleo que funciona como uma espécie de ímã, com capacidade de atrair conteúdos da consciência para perto de si. Esse núcleo central seria constituído pelo arquétipo, ao redor do qual orbitam numerosas associações e idéias de conteúdo afetivo, dotadas de uma grande quantidade de energia psíquica acumulada. A esse conjunto ele denominou complexo.

Jung: “É possível alcançar o centro do complexo diretamente, de qualquer ponto de uma circunferência, seja a partir de um sonho, do alfabeto cirílico, das meditações sobre uma bola de cristal, de um moinho de orações lamaístas, de um quadro de pintor moderno ou, até mesmo, de um bate-papo ocasional”.

2.2. Os complexos atrapalham a nossa vida

Na prática, surgem dois problemas fundamentais decorrentes de nossos complexos. O fato de uma parte da totalidade da psique ser excluída da consciência é um axioma da psicologia profunda. Essa parte é inativa só aparentemente. Trata-se da nossa sombra, onde estão os complexos que arquitetam os sonhos e pesadelos, produzem os sintomas neuróticos, nos induzem a cometer erros, a ter brancos de memórias, a praticar atos falhos, a nos colocarmos em situações constrangedoras.

É possível comparar os complexos inconscientes com os espíritos (obsessões). Esse o motivo que levou Jung a acreditar que muito do que se pensava ser “espiritual” correspondia a comunicações emanadas do mundo inferior da psique. Nesse sentido, os complexos têm uma verdadeira autonomia, parecendo contar com vontade própria e com uma personalidade independente. Seriam o que algumas tribos indígenas chamam de almas parciais, ou os demônios, dos quais na Idade Média as pessoas eram possuídas.

Situações ou imagens corriqueiras podem nos levar a ter contato com nossos complexos. Tratando-se dos pontos sensíveis da psique, os complexos são como os nossos órgãos feridos, que reagem rápida e intensamente aos estímulos e perturbações externas. De fato, são a pedra no nosso sapato, a nossa ferida. Por essa razão, a maneira mais rápida, apesar de mais dolorosa, de percebermos um complexo é ficarmos atentos às situações em que somos levados por algum afeto.

Sempre que uma emoção nos domina, é sinal de que algum complexo foi ativado. Jung dizia que não somos nós que possuímos um complexo, mas ele é que nos possui. Enquanto o complexo estiver no inconsciente, isto é, enquanto não estivermos conscientes dele, estaremos sob seu poder, sujeitos às reações mais irracionais. Os complexos do inconsciente nos visitam entrando pela porta dos fundos, invadindo nossa intimidade nas horas mais inoportunas. Seu propósito é o de nos revelar o que menos gostamos de ver em nós mesmos: nossa Sombra.

São os amigos e as pessoas mais íntimas os que costumam enxergá-la. Se alguém nos faz ou nos fala algo que toca nossa Sombra, ficamos possuídos pela raiva, pela vergonha ou pelo medo. Ficamos sob tempestades emocionais, imersos em paixões que se voltam contra nós mesmos ou contra quem denunciou nosso lado sombrio, escondido da consciência. Nossa reação é devolver a critica, manifestar intolerância, preconceito, acalentar desejos de vingança e, às vezes, aprontar muita confusão. Ou, então, ruborizarmos, ou gelarmos. Às vezes, também engasgamos, tossimos, emburramos. É comum, ao longo de nossas vidas, repetirem-se as situações e as reações de desconforto motivadas por nossos complexos. Quantas vezes voltamos a ter procedimentos que havíamos jurado nunca mais repetir? Nossos complexos nos levam a ter atitudes inadequadas, a falhar com os amigos, a fazer o que não queríamos. Finalmente, após inúmeros confrontos com nossos erros, defeitos e inferioridades, nos livramos de sua influência. Ou, como dizia Jung, eles um dia nos abandonam.

2.3. Projetamos nossos complexos nos outros

Quanto menos consciente estivermos do seu conteúdo, mais facilmente determinado complexo é projetado em pessoas do mundo exterior que, de certa maneira, dizem respeito a características que ele apresenta. Enquanto forem construtivas, ajudando na adaptação ao mundo, as projeções terão um papel positivo. Pode-se mesmo dizer que o indivíduo com certo grau de autonomia mantém as projeções favoráveis à mão, evitando as desfavoráveis.

A projeção dos complexos pode ser construtiva em determinadas fases do desenvolvimento da personalidade. Em certos casos, pode causar problemas nas relações pessoas. Sempre que uma nova diferenciação entre sujeito e objeto se fizer necessária, o ego terá que se confrontar com o aspecto inconsciente que estava projetado no objeto e tentar integrar as projeções em suas própria personalidade.

Imagine, por exemplo, uma mulher extremamente ambiciosa, porém sem consciência desse aspecto de sua personalidade (que ficará armazenado na sombra). Ela se apaixona e se casa com um homem muito rico, poderoso e bem-sucedido. Caso se acomode e passe a viver seus desejos ambiciosos por intermédio dele, podemos dizer que sua sombra está projetada no marido. Enquanto durar o relacionamento, ela talvez não entre conscientemente em contato com seu lado sombrio, que permanecerá projetado. Mas, no momento em que houver uma crise na relação, a mulher deverá confrontar-se com seus desejos ambiciosos não elaborados e buscar algum meio de realizá-los por si mesma.

Um homem extremamente sensível, não consciente de sua sensibilidade, apaixona-se por uma artista plástica, passando a viver seu lado artístico projetado nela. Cedo ou tarde ele irá confrontar-se com sua Sombra e deverá desenvolver sua sensibilidade.

No caso de uma pessoa neurótica, sua relação com o mundo ao redor é tão intensa que ela não pode evitar que as projeções negativas de seus complexos sejam feitas sobre os objetos mais próximos, levando aos conflitos. Por ser inconsciente, o valor dos objetos que contêm as projeções dos complexos é exagerado. Quantas vezes uma banalidade qualquer, uma pequena diferença de opinião ou uma simples contrariedade não transforma a relação entre duas pessoas numa verdadeira guerra? O neurótico é forçado a se conscientizar dessas projeções, a reconhecer que o inimigo está dentro dele e não fora. O mesmo não o corre com o indivíduo em sintonia consigo mesmo, embora suas projeções sejam também perigosamente ilusórias.

De acordo com Jung: “Muitos complexos são separados do consciente porque este preferiu eliminá-los através da repressão. Mas há outros que nunca estiveram no consciente ante e, portanto, nunca poderiam ter sido arbitrariamente reprimidos. Eles transbordam do inconsciente e invadem a mente consciente com suas convicções e impulsos estranhos e incontestáveis.

Se uma pessoa ou objeto torna-se alvo de alguma de nossas projeções, eles passam a ser portadores de nossas imagens e de nossos símbolos. Dessa forma, o objeto exterior assume as características do nosso complexo inconsciente e começa a exercer, de maneira mágica, pela via do inconsciente, uma influencia direta sobre nós. Por meio do mecanismo da projeção, passamos a ver nossos aspectos inconscientes fora de nós e temos à ilusão de que nos livramos dele. Desse modo, há duas “vantagens”: achamos que tais aspectos inconscientes não nos dizem respeito e, portanto, não nos sentimos obrigados a lidar com eles.(Qualquer objeto pode ser depositório de nossos complexos).

Um momento de crise em um relacionamento pode ser uma boa oportunidade para as pessoas tentarem identificar seus complexos, percebendo as projeções inconscientes, o que se completa quando o que foi projetado puder “voltar para casa”, isto é, quando o valor simbólico que havia sido depositado na pessoa ou no objeto puder, por meio de conscientização, retornar ao sujeito, juntamente com seu significado. A única maneira de evitarmos as projeções é conscientizando-nos dos nossos complexos e confrontando-os. Como afirmou Jung, o caminho da diferenciação da consciência e do ego deve obrigatoriamente passar pelo desligamento dos imagos[2] que atribuem aos objetos um significado exagerado. Com o desligamento, o sujeito recupera a energia psíquica inconsciente e dissociada da qual ele necessita para seu desenvolvimento.

Se tudo o que é inconsciente é projetado, e se toda projeção – por exemplo, alguma coisa que nos aborrece acerca de outra pessoa – diz respeito ao conteúdo da própria psique do indivíduo, como podemos saber a diferença entre perceber adequadamente um fato e projetá-lo?

É a coloração emocional que vai nos dizer se estamos ou não envolvidos numa projeção. Já que a projeção é sempre a visualização de um complexo, ela se faz sentir por uma forte carga de afeto. Toda vez que uma projeção está envolvida, ela nos “irrita”, nos “aborrece”. Nossa reação é determinada pelo afeto e somos, portanto, incapazes de reagir adequadamente em relação a uma pessoa ou situação; não conseguimos nem aceitar, nem modificar, nem abandonar essa pessoa ou situação. 

Em síntese, pode-se dizer que o complexo inconsciente nem sempre é um inimigo atroz, pois, embora crie situações desagradáveis, ajuda a pessoa a conhecer-se. Como diz o ditado popular, há males que vêm para bem. O inconsciente pode tornar-se nosso maior aliado se formos capazes de aceitar suas mensagens, uma vez que em nossa Sombra estão também presentes os aspectos sadios e criativos de nossa personalidade que ainda não se desenvolveram.


3. Fontes Bibliográficas para o texto:

Luiz Paulo Grinberg – Jung: o homem criativo.

Edward C. Whitmont – A Busca do Símbolo.

Daryl Sharp – Léxico Junguiano

Calvin S. Hall e Vernon J. Nordby – Introdução à Psicologia Junguiana.


[1] Primordial significa primeiro ou original.
[2] Imagem psíquica de algo ou de alguém criada subjetivamente, produzida pela percepção sensorial associada a emoções, impressões interiores ou fantasias inconscientes advindas do arquétipo.